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Quem é a mulher que ganha menos que o homem? Sou eu e é você

Lia Bock

12/05/2020 04h00

(iStock)

Quando a gente olha para os dados revelados pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, que mostram que ainda hoje vemos uma defasagem de salário entre homens e mulheres, pensamos nessa mulher como algo distante. A mesma coisa acontece quando falamos sobre os dados que mostram que a violência contra a mulher aumentou no período de quarentena. É comum pensarmos esses números com a frieza de quem analisa uma coisa que acontece lá, em algum outro lugar que não sabemos muito bem onde é.  

Mas a verdade é que essa mulher que ganha em média 28,7% a menos que os homens somos nós. Eu, você, sua mãe ou irmã. Trazer esses dados para o chão é muito importante para que a gente consiga de fato fazer alguma coisa com eles.

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E aí tem uma diferença entre a violência e a equidade salarial. Porque a violência pode nos provocar a mudar, nos deixar com uma indignação capaz de produzir uma rede de proteção. Para a violência não tem desculpa e o velho "em briga de marido e mulher ninguém mete a colher" já está ultrapassado.  

Com a equidade salarial não é bem assim. Sempre há uma desculpa, sempre há um porém e uma explicação mirabolante para provar que "elas ganham menos porque trabalham menos horas". Ou "porque produzem menos". Ou ainda "porque têm menos experiência". Há todo tipo de pirueta para tentar mostrar que esse dado não é correto ou é impreciso.

Mas a realidade é essa mesma, meus senhores. As mulheres foram relegadas ao lar e ao cuidado da família por muito tempo e isso as prejudicou no mercado. Precisamos trabalhar o dobro para conquistar o mesmo espaço. Precisamos ser dez vezes mais competentes para ganhar o mesmo salário. Precisamos dar muito mais braçadas porque na nossa raia a maré está contra nós.

E isso é um problema de todos.

Claro que não é fácil assumir que a nossa empresa, nosso partido político, nossa ONG ou entidade tem comportamentos machistas. Dói, mas, acreditem, dói mais ainda conviver com esses comportamentos e não fazer nada. E aqui vale dizer que a diferença salarial às vezes é apenas um dos problemas. 

Vamos aproveitar este momento de confinamento para olhar para dentro, para olhar para nós e o que estamos fazendo para mudar o cenário que está dado, registrado e reiterado pelo IBGE?

A mulher que ganha menos do que o homem não é estatística – assim como não é a que sofre violência do marido. Precisamos encarar a realidade: elas somos nós, e agir contra isso é um dever de todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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