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Por que os motoristas odeiam tanto os ciclistas?

Lia Bock

24/09/2019 04h00

(iStock)

Com a presença das ciclovias e o aumento do cicloativismo, o ódio dos motoristas pelos ciclistas ficou ainda mais óbvio. Gritos, aceleradas e finas perigosíssimas e, claro, muito buzina na cabeça. Nem gente levando bebê na cadeirinha é poupada. 

A pergunta que eu faço aqui é: por quê? O que gera essa raiva tão vibrante?

Se a gente pensar bem, cada bicicleta na rua pode ser considerada um carro a menos, ou seja, o pessoal deveria era agradecer cada biker que passa na sua frente. Só que, ao contrário disso, o que vemos é aquele famoso "nós contra eles" comum nos jogos de futebol. 

Dia desses eu estava com meu filho pequeno na garupa e o mais velho na bicicletinha dele atrás, passando pela Vila Madalena. Eis que uma moça num SUV enorme sentou a mão na buzina e, ao passar do nosso lado, disse: "Vai pra ciclovia!". Ô, querida, tenha certeza que, se não estamos numa ciclovia, é porque não há uma. A maioria dos ciclistas prefere andar em segurança nas faixas exclusivas, mas não podemos esquecer que bicicleta é meio de transporte. Ou seja: se não há uma ciclovia entre o ponto A, onde estamos, e o ponto B, onde precisamos chegar, vamos ter que andar pela rua mesmo.

Isso nos leva a um ponto importante: os brasileiros estão tão pouco acostumados com gente se locomovendo de bike que não imaginam que as pessoas sobre duas rodas não estão passeando. Quem ainda acha que bicicleta é diversão de domingo precisa rever esse conceito urgentemente e, quem sabe, dar uma pesquisada em como a coisa funciona em Berlim ou em Amsterdã. 

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Na avenida Brigadeiro Faria Lima, em São Paulo, os motoristas sabem que a galera está indo ou voltando do trabalho. Os horários de pico e as vestes deixam bem claro que não é passeio. E eles acham bom que tem um carro (ou vários) a menos na rua? Não! Eles buzinam e ficam indignados quando precisam dar passagem para uma fila de bicicletas. É um estranho sentimento de que os carros são mais importantes, como se valessem mais. 

E não me venham com o argumento simplista de que "ciclista é tudo folgado". Esse generalização parece argumento de criança de dez anos. Infelizmente, não há essa unidade toda na categoria. Tem ciclista para todos os gostos. Tem os trabalhadores de entrega (cicloentrega bombando!), tem as tiazinhas de chapéu pra não tomar sol no rosto, tem as famílias em fila, os aprendizes, os atrasados e, claro, têm os espertões que aproveitam que bike não toma multa pra aprontarem barbaridades. Mas achar que, ao subir na bike, todo mundo vira espertão é reducionista demais. 

Está mais do que na hora de enxergarmos a rua como um lugar público que deve ser dividido por todos, estejam estes a pé, de carro, de bike, de carrinho de bebê ou de patinete. Aproveito para deixar aqui minha sugestão para o Detran: quem sabe incluir uma aulinha sobre respeito e cuidado com os ciclistas na hora de tirar a carta possa ajudar a galera a ter mais amor no coração quando cruzar a turma que anda de magrela!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.

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