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E se em vez de gritar contra as armas a gente pusesse revólver na bolsa?

Lia Bock

23/11/2018 04h00

(iStock)

Estava pensando aqui com meus botões: e se a gente parasse de resistir à política de armas proposta por Bolsonaro e aderisse a ela? Em vez de gritar contra as armas colocaríamos revólveres em nossas bolsas.

Vai ser bem fácil comprovar que precisamos andar com algum tipo de trabuco legalizado. Basta mostrar os números de estupro e violência contra a mulher que, pronto, ganharemos o porte com certeza, afinal, foi isso que eles prometeram, certo?

Já tô até me vendo com uma arma potente, mas de tamanho reduzido, dentro da pochete vermelha. Ai dos boys que resolverem se engraçar grosseiramente pra cima de mim. Porque, claro, eu não vou esperar o cara me imobilizar e me estuprar pra tomar uma providência, certo? Sacarei minha arma antes que a coisa degringole. Não que eu vá atirar logo de cara. Mas toda vez que eu botar o revolver na cara de um fulano, tenham certeza de que lembrarei de todas as minhas a amigas que já foram estupradas e abusadas. Isso me darár firmeza e coragem.

Aliás, sabe esses maridos abusivos que enrolam as amigas mais vulneráveis com uma psicologia psicopata? Fiquem alertas também! Se eu ficar sabendo de qualquer babado, não vou pensar duas vezes antes de mirar neles. Nossa… isso vai ter um gostinho especial.

E toda vez que alguma amiga me ligar pra pedir conselhos amorosos (de qualquer ordem) vou estimulá-las a comprar uma arma. "Querida, um revolverzinho básico pra você se defender, se for necessário". Medo de andar sozinha à noite? Arma no bolso e passo firme. Medo de ficar sozinha em casa? Arma embaixo do travesseiro e sono tranquilo. Medo do ex em surto? Esquece a medida protetiva, revólver em punho e ai dele se resolver se aproximar. Fulaninho deu sarrada nas minhas filhas na escola? Chama o pai dele aqui pra uma "conversa".

Vai ser emocionante! No bar vamos falar de corte de cabelo, filhos, política pública para educação, Tinder e tipos de arma.

Daí a virar moda é um pulo. Vai ser o feminismo mais potente de todos: o feminismo armado.

Começo a achar até que posso montar um curso online. Ensinar as minas e as monas a saírem do modo pacifista para entrar na nova Era.

E no momento em que apertarmos o gatilho, totalmente respaldadas pela lei e pela lógica, cairá a nossa frente um miliante estuprador, abusador. Se tudo der certo, cairá um miliante a cada 10 minutos (medida pautada pelos estupros que acontecem no país). E assim, deixaremos de ser as estupradas para nos tornarmos as assassinas. :-0

Não. Obrigada.

Marchemos contra as armas e pela paz que ainda vale mais a pena.

(Este texto contém ironia, sarcasmo e algumas gotas de tristeza)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Hoje comentarista na CNN Brasil e editora da plataforma Hysteria, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e também colunista da revista "Crescer".

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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