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Lia Bock

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E se fosse a Manuela D'Ávila em uma suruba?

Lia Bock

23/10/2018 18h06

Vamos aos fatos. Um candidato a governador supostamente aparece em um vídeo de uma suruba (ou alguma coisa parecida com isso). Não sabemos se a filmagem é verdadeira ou uma montagem. Não sabemos se é de ontem ou de idos da prefeitura paulistana. O que sabemos é que, de repente, o candidato "coxa creme" foi alçado a… comedor.

Não estou supondo que o vídeo é verdadeiro (em uma live no Facebook, Doria disse que trata-se de uma fake news), estou apenas falando da reação dos eleitores e da plateia atenta ao show desses atos pré-segundo turno aos fatos & fakes do dia. Os twittes, os memes, os papinhos do WhatsApp mostram que "puxa, gosto mais dele agora" ou "agora sim ele ganhou meu voto". Palmas para João, que já foi lixeiro, gari e agora é garanhão.

Vejam que interessante: apesar de muita gente se esforçar para que o vídeo seja a prova cabal de que Doria fala demais e faz de menos, que prega a família, mas trai a mulher e faz bacanal o que fica é a pecha de garanhão. Se surpreendem com a virilidade do cara e não com o fato dele falar uma coisa e fazer outra. Intrigante.

Mas e se João Doria fosse uma mulher? E se fosse Manuela D'Ávila num vídeo (ou montagem) semelhante? Uma candidata nua no meio de um punhado de rapazes sarados (fake ou não) conseguiria de alguma forma atrair a simpatia da população? Duvido muito. Num mundo onde o tamanho da saia é justificativa para abuso e candidato à presidência diz que mulher feia não merece nem ser estuprada, uma mulher na posição de Doria seria rapidamente tachada de vagabunda.

Twitte de Rafinha Bastos faz ironia com o vídeo. Mesmo na tiração de sarro é positivo ser garanhão

Porque, sim, ainda vivemos num mundo onde o sexo safado é coisa pra macho ou pra raparigas sem valor. Historicamente homem pode transar, fazer suruba, iniciar a vida sexual com puta e outras aventuras afins, enquanto a mulher deve se guardar, se não para o marido, ao menos para um namorado sério, um homem de respeito, um João Doria da vida.

O que eu estou querendo dizer? Tô querendo um mundo com mais suruba e menos hipocrisia. Um mundo com mais sexo gostoso, consentido e divertido pra todos e todas. Um mundo onde cada um faz o que quer e a tal família brasileira não tem nada com isso. Um mundo gay, um mundo bi, um mundo tri, um mundo free.

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.