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Lia Bock

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A palavra marido datou?

Lia Bock

2028-08-20T18:04:00

28/08/2018 04h00

(iStock)

Acho lindo ver minhas amigas falarem "companheiro" ou "parceiro". É atual, feminista e deixa pra trás o ruído que existe na expressão "marido e mulher". Mas preciso confessar: eu não consigo.

São 16 anos usando a palavra marido, que na superficialidade etimológica não parece tão nociva. Difícil mudar. Sim, porque eu também falava "mulata" e "denegrir" e essas não falo mais com muito orgulho. Mas eliminar marido é difícil pra mim.

Me lembro da primeira vez que a usei. Foi quando mandei o carro para consertar e o namorado, com quem eu acabara de casar, iria buscá-lo. Liguei lá e disse: "meu marido vai passar aí pra pegar". Eu tinha 23 anos e foi estranho. Naquela época, marido pra mim era coisa de gente velha. Mas, pouco tempo depois eu estava habituada. Afinal, a gente se acostuma com tudo, não é mesmo?

Daí pra frente foi natural. Minhas amigas casaram e chamávamos seus parceiros de marido. Separei, casei novamente… tudo marido. Mas, o movimento feminista se aguçou e começamos a rever diversos conceitos. Começamos a questionar, por exemplo, a expressão "meu marido super ajuda em casa", como sendo um elogio. Passamos a falar em dividir as tarefas de forma igualitária, isso sim uma revolução.

Nessa onda, a própria palavra marido acabou ficando velha. A etimologia mostrou que o conceito "marido e mulher" tem ranço do tempo em que a fêmea humana pertencia ao macho, enquanto ele era apenas o maritus (homem casado).
Enfim, entendo. Mas neste caso acho que cabe a subversão e modernização do conceito, senhora juíza. Acho que podemos reformular os casamentos e as relações e manter a palavra.

Quando escrevo até consigo escrever companheiro – e me preocupo sempre em colocar junto a palavra companheira, porque a gente se junta com quiser quiser. Mas na hora de falar, não sai. Seria lindo também usar a palavra namorado. Que socialmente tem um peso menor, mas mantém um frescor que depois de filho, cachorro, gato e galinha é lindo de se ver. Acho lindo quem está junto há 20 anos e se chama de namorada e namorado. Mas eu já acostumei com marido e às vezes me parece que quando a gente fala namorado significa que não temos filhos. E daí você tem quem explicar… e eu odeio explicar.

Mas a verdade é que o maior problema talvez não esteja em marido, companheiro ou namorado mas no "meu" ou "minha" que vem antes. Deixemos as pessoas serem elas mesmas e terem nome antes de serem nossas alguma coisa, não é mesmo? Talvez esse seja o melhor caminho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.