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Lia Bock

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Sabia que o match dos aplicativos é melhor que o da vida real?

Lia Bock

21/08/2018 04h00

(iStock)

Que os aplicativos de paquera chegaram pra chacoalhar as nossas vidas, nós já sabemos. Paquera sem sair do sofá, pessoas casadas em busca de outros casais para diversão grupal, gente que nunca se deu bem na dança do acasalamento na noite arrasando nos matches e por aí vai. Desde que foi inventado em 2011 o Grindr (seguido pelo Tinder, Happen e demais concorrentes) vem dando outro contorno ao sexo casual.

Muita gente ainda resiste aos dados e aos fatos. É verdade. E também não podemos ignorar que muitos têm experiências ruins nestes apps. Mas o que a reportagem da revista The Economist (a qual tive acesso via Meio <3) mostra é que nos Estados Unidos um sexto desses encontros resultam em casamento. E vai mais longe, ela mostra que outro sexto dos casamentos decorrem de encontros nascidos na internet, mas não por sites especializados.

Gente! Vocês têm ideia do que isso significa?

Antigamente, tínhamos os casamentos acertados, quase como negócio e que muitas vezes uniam famílias já bem próximas. O importante era manter os bens e fazer conexões que não misturassem castas. Com o surgimento do casamento por amor, vimos uniões muitas vezes restritas a classes sociais ou profissões. Aquela coisa de que médico só casa com médico e afins. Claro, em tempos pré-internet, era bem mais fácil conhecer pessoas do seu círculo e o profissional se tornou um bom jeito do match dar certo. Neste contexto surgiram as agências de casamento, que numa cultura pré apps fazia o match manualmente, digamos. Nunca foi um coisa usada em larga escola e muitas vezes foi relacionada a pessoas "desesperadas".

Daí surgiram os algoritmos e o fantástico mundo da paquera via redes sociais. Muita gente torceu o nariz, como fizeram para as agências de relacionamento. Não era difícil escutar pessoas dizendo "eu não preciso do Tinder" ou se surpreendendo de ver uma moça como qualquer outra usando os aplicativos. Isso durou pouco (apesar de termos gente nesta resistência até hoje). Os apps se mostraram eficazes na proposta de juntar pessoas, seja para uma noite e nada mais ou para aquele sincero "eterno enquanto dure".

Só que os algoritmos não param e a cada dia somos mais impactados pelo mundo que combina (direitinho) com a gente. O Instagram oferece marcas e produtos que são a nossa cara, o Facebook traz aquele amigo com quem você (puxa!) podia mesmo se reconectar. Tempos em que seu fogão quebra e voilá, um monte de ofertas de fogões incríveis pipocam no seu e-mail. É neste mundo que vivem os apps de paquera. E veja, funciona. Gostem ou não estamos falando de uma mudança poderosa no como e com quem as pessoas se casam. Sim, porque os apps vão (ou podem ir) muito mais longe do que qualquer festinha em que você se aventure.

Os apps podem te trazer pessoas que são a sua cara, mas moram longe. Pode te trazer gente de outras profissões e classes sociais só porque vocês fizeram baldeação na mesma estação naquele dia. Gente que você não iria encontrar procurando sozinho. Gente com quem você pode casar, ter três filhos e depois brigar pelo apartamento que compraram juntos. Ou… gente com quem você pode ser feliz pra sempre. Sim, porque a reportagem sugere que a compatibilidade dos casais formados online é maior! Durmam com essa.

Tudo bem se você nunca usou Happen. E tudo bem se você passar a vida sem usar. É ó lembrar que tem gente que vai morrer sem fazer compra pela internet ("o número do meu cartão de crédito online? Nem pensar"). Outros nunca deixaram que seus nomes entrassem na extinta lista telefônica ("ao acesso de qualquer maníaco? Nem pensar"). E há aqueles que jamais colocarão as contas no débito automático ("confiar em bancos? Nem pensar"). Cada um com seu cada qual. Mas o importante aqui é a gente olhar para este dado com o otimismo. Estamos falando de liberdade de escolha. Estamos falando da tecnologia funcionando (ou podendo funcionar) em nome do amor. Estamos falando de match (real e oficial) para a vida a dois.

Eu animo! Penso até na evolução positiva da tecnologia onde as mulheres estejam cada vez mais seguras para encontros no escuro e onde homens com histórico de violência, por exemplo, sejam banidos do reino encantando da paquera online.

E para aqueles que acham que os apps acabam com o romantismo eu garanto: o que acaba com o romantismo é gente pouco romântica. No Tinder ou fora dele.

 

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.