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Lia Bock

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É preciso ter medo do marido

Lia Bock

05/08/2018 13h32

(reprodução)

É triste demais dizer isso, mas é preciso ter medo de homem, é preciso ter medo do marido. Não de qualquer homem, não de qualquer marido. Mas vamos aos fatos: o assassinato de Tatiane Spitzner é um exemplo muito claro do que quero dizer. O que nos veem em mente ao assistir o vídeo das câmeras do circuito interno do prédio onde o Luís Felipe Manvailer espanca a esposa é: será que passava pela cabeça dela um desfecho tão trágico? Será que ninguém escutou os pedidos de ajuda? Porque ninguém interferiu?

Depois que acontece o roteiro parece muito óbvio, mas na hora não é tão simples. Pelas mensagens divulgadas por uma amiga de Tatiane, ela já vinha sendo agredida pelo marido e, por isso, estava entrando com um pedido de divórcio. Na mensagem não fica claro se eram agressões verbais ou físicas, mas depois de ver as cenas do casal no prédio, fica difícil pensar que essa foi a primeira vez que ele bateu nela.

Histórias de mulheres assassinadas porque o parceiro não aceita o divórcio (inclusas nos crimes de feminicídio) são comuns no Brasil. Histórias de mulheres que querem se separar porque são agredidas também são comuns. E é por isso que eu (infelizmente) digo: precisamos ter medo dos homens, precisamos ter medo do marido. Claro que não de todos. Muitos nunca levantaram um dedo e nem a voz às suas companheiras, mas anotem, aqueles que gritam descomedidos, ameaçam, prensam na parede, seguram, batem e mostram descontrole em momentos de desentendimento ou stress são, sim, potenciais assassinos.

Não tem essa de "ele me bateu algumas vezes, mas seria incapaz de algo mais grave". Não tem essa de "ele ameaça, mais sei que nunca vai fazer nada". Para alguns homens (mais mansos, mas que esquentam rápido) o simples colocar da ideia de que "eu estou com medo de você" é um freio. Essa é uma frase forte. Mas para outros não, porque o que querem é justamente esse poder.

Uma amiga uma vez me contou que uma colega sua apanhava do companheiro. Me choquei, pedi para ela interferir, indiquei uma especialista. Ela foi reticente, disse que o casal era feliz. O caso de Tatiane (que se soma a tantos outros) mostra que o limite é tênue demais e que vale a pena carregar conosco o receio de que algo de pior aconteça.

É preciso temer pela nossa vida quando o cara esconde a chave pra você não sair, pela vida da amiga que toma uns tapas, pela vizinha que grita pedindo ajuda, pela colega que esconde as marcas roxas, pela desconhecida que é arrastada pelo cabelo no metrô.

Eu não consigo imaginar a dor dos amigos e familiares de Tatiane (e também de Luís Felipe) que conviverão pra sempre com a pergunta "será que poderíamos ter feito algo?". Fico remoendo o que se passou na cabeça dela no exato momento em que percebeu que a coisa era séria. E penso: como não chegar neste ponto? A única resposta que me vem em mente é: tendo medo, achando que, sim, algo de mais grave pode acontecer e não pensar muitas vezes para pedir ajuda. Neste caso, conversar com especialistas, denunciar, conseguir uma medida protetiva. Ou seja, agir antes que seja tarde.

Pra mim, é uma questão de sobrevivência pensar que, sim, um homem descontrolado e agressivo pode matar uma mulher. Sim, este homem pode ser aquele que amamos.

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a publicar os textos sobre relacionamento que escrevia desde a adolescência em 2008, no site da revista TPM, onde se tornou redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. É autora do livro "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)". Já morou em Pirenópolis e em Londres. Nasceu em 1978 e é mãe de dois meninos.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.