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Lia Bock

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Você quer mesmo saber o quer é uma sociedade machista?

Lia Bock

2026-06-20T18:12:00

26/06/2018 12h00

(iStock)

Sei que para algumas pessoas é difícil entender o que significa a expressão "sociedade machista". Pode ser má vontade ou uma certa neblina nas explanações. Por isso trago cá um exemplo límpido e translúcido de onde isso se apresenta no dia a dia.

A história da pesquisadora Sinara Gumieri resume bem esse fantasma que nos assola. A mestre em direito e pesquisadora foi ferozmente atacada pelo professor também de direito Samuel Milet depois de uma palestra que proferiu como convidada na Universidade Federal e Rondônia (UNIR), onde Samuel dá aula. E onde em sala foi gravado se referindo à ela como "aquela vagabunda. Defensora de aborto, de gênero. E 'ai' dela que mande me processar, que eu provo que ela é. Aquela mulher, aquela bostinha, cocô. (…) Sapatona muito doida".

Vocês podem dizer, nossa, o que ela faz pra ele? Que roupa estava vestindo? Mas não é nada disso, as agressões veem por causa de visões diferentes que ambos têm com relação às questões de gênero e aborto.

O machismo não está apenas nas palavras descabidas para uma discussão de nível universitário, mas em tudo que se sucedeu a partir dela.

A universidade não se pronunciou com a devida pompa e nem se posicionou a respeito do ocorrido. A instituição também não abriu uma discussão sobre o tema, ampliando o debate e fortalecendo o ambiente democrático. Muito menos demitiu o professor, que ainda estava em período de avaliação e poderia ter sido desligado ali mesmo.

Amplificando o machismo que nos rodeia, a fala de Samuel foi celebrada e o catapultou a astro, um defensor da vida. Alguns pediram sua candidatura e ele mesmo afirma que o caso fez bem para sua imagem.

Agora me expliquem: como uma agressão cheia de xingamentos eleva um professor de direito ao invés de desqualifica-lo? Só um contexto absolutamente machista e tendencioso explica a situação.

A esperança está na justiça que em breve (mas só dois anos depois do ocorrido) julga acusação de assédio moral movida por Sinara. Mas o dano já está feito. Um homem desequilibrado, agressivo e prepotente teve seu dia de glória sendo justamente desequilibrado, agressivo e prepotente. Enquanto uma pesquisadora que usa argumentos e dados para expor suas ideias precisa recorrer à justiça para que este ser humano não saia ileso e glorificado do episódio de agressão do qual foi protagonista.

Isso se chama machismo, senhoras e senhores.

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

A jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008, no site da revista TPM, onde foi também redatora-chefe. Passou por publicações como Isto É, Veja SP e TRIP e foi colunista de sexo da GQ. Hoje, é editora da plataforma Hysteria e produtora de conteúdo freelancer. É autora de "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro". É mãe de quatro e sócia do ex marido no canal Ex-casados.

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o espaço da mulher no mundo.