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Lia Bock

Uma carta para MC João, funkeiro que criou Baile de favela

Lia Bock

06/01/2018 08h00

(iStock)

Oi João. Eu sei que Baile de Favela já tem lá seus três anos e você nem deve aguentar mais essa ladainha. Mas aqui em casa ele só chegou agora, trazido pelo meu filho mais velho, de 9 anos. Ativista pró-pista que sou, curti a pegada. Acredito na lavagem da alma através da dança. Qualquer música que faça o pezinho bater e o corpo dançar até suar, me embalam.

E eu gosto mais ainda é de dançar cantando. Aquela energia que junta a batida, a voz do cantor e a nossa é irresistível. Meus filhos pegaram isso de mim e aqui em casa todo mundo curte uma boa letra de gritar. Dois cliques no Spotify e, sem que eu percebesse, Baile de favela estava bombando na nossa cozinha.

Que batida maravilhosa! Antes de terminar de tocar a primeira vez, o pequeno, de 4 anos, já estava cantando: "ela veio quente, e hoje tô fervendo". Aliás, é o tipo de poesia musicada que acende o público, desde os tempos de Roberto Carlos.

Baile de favela não é recomendado para crianças. Mas não sou do tipo que curte censurar ou proibir música. Respeito a arte e suas diferentes formas de expressão. E também sei como falar pros meus filhos porque algumas frases cantadas em certas músicas não são legais – já aprendi que dizer para as crianças que não pode ouvir só causa mais vontade. Mas puxa, é uma pena que uma música boa dessas repita diversas vezes que "mexeu com o R7 vai voltar com a xota ardendo".

Li em entrevistas que você não vê incitação da violência contra a mulher porque antes dessa frase vem o "consenso" dizendo que "ela veio quente", ou seja, estava querendo. Entendo sua explicação. Mas pense comigo: quando a xoxota arde há um desconforto, certo? E o que você está dizendo ali é que se te provocar a mina vai voltar desconfortável. Incomodada de alguma maneira.

Precisa isso? Pense: se o sexo foi incrível, mesmo que haja um certo ardor, o que fica não é isso. A trepada das galáxias deixa as xotas felizes. E não é muito mais legal quando as minas voltam pra casa com o xota apaixonada? Um belo sexo, desses que dura o final de semana inteiro, pode até dar cistite ou candidíase, duas coisas que vêm quando trepamos muito, mas daí a se vangloriar justamente dessa parte são outros quinhentos. Você está cantando, em alto e bom som, que se a mina mexer com você (te querendo) vai voltar pra casa lembrando do seu pau pela dor e não pela maravilhas que ele pode fazer.

A ardência está mais ligada a um sexo que não lubrificou direito, que não encaixou gostoso. Não fodeu como poderia, só ficou naquela coisa mecânica que se não foi uma trepada ruim, foi pior. Mas vamos lá, mesmo que não estejamos falando de violência explícita, quem gosta de voltar com o xota ardendo, meus deus? Qual a graça de trepar com uma mulher e ela ir embora arrombada? Se ela veio quente e você também estava fervendo, porque alguém tem que sair incomodado?

Estamos numa jornada épica contra a cultura do estupro, que, veja, não é o estupro em si, mas essas pequenas coisas que naturalizam a violência sexual contra a mulher. E se vangloriar em cima de uma xota que volta ardendo vai para esse lado. Entende?

Não me leve a mal. Amamos Baile de favela aqui em casa, mas propus uma espécie de duelo: como proibi de cantar esta frase, ganha pontos quem fizer a melhor rima pra por no lugar. Mostrei a versão (maravilhosa) feita pelos estudantes secundaristas durante as ocupações das escolas pro meu filho e propus uma releitura desses trecho. Dentre outras coisas de qualidade impublicável, já criamos: "Mexeu com o R7 vai voltar é me querendo". Sei que não somos bons nisso, mas estamos tentando.

Você bem que podia ajudar a gente e criar uma rima alternativa, né? Uma rima que faça jus a esta música maravilhosa e não coloque a turma para cantar uma mulher que sai sofrida da trepada. Uma rima que, repetida à exaustão, acaba por normalizar a dor no sexo.

Trepar é bom quando é bom pra todo mundo.

Obrigada pela atenção.

Beijo, Lia

Sobre a autora

Comentarista na CNN Brasil, a jornalista Lia Bock começou a blogar em 2008 no site da revista "TPM", onde foi também editora-chefe. Passou por publicações como "Isto É", "Veja SP" e "TRIP". É autora dos livros "Manual do Mimimi: do casinho ao casamento (ou vice-versa)” e do "Meu primeiro livro", ambos editados pela Companhia das Letras. É mãe de quatro filhos e pode ser encontrada no Instagram @liabock e no Twitter @euliabock

Sobre o blog

Um espaço para pensatas e divagações sobre notícias, sexo, filhos, coração partido, afetações apaixonadas e o que mais parecer importante ao universo feminino.

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